Saiba como o manejo alimentar do gado de corte pode aumentar a rentabilidade do produtor

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O manejo alimentar tem forte influência na rentabilidade da criação de bovinos de corte, por isso é  indispensável que o pecuarista seja conhecedor da nutrição animal e as características dos alimentos.

Para falar sobre o assunto a Revista Veterinária convidou o professor Marcelo Neves Ribas, Médico Veterinário pela UFMG, Mestre em Zootecnia (Nutrição Animal) pela UFMG, Doutor em Zootecnia (Nutrição Animal) pela UFMG, atualmente Consultor Técnico da empresa VALOR Orientações Agropecuárias Ltda. e professor de Cursos de Nutrição de Bovinos do CPT – Cursos Presenciais.

RV – Qual a importância da nutrição no manejo de bovinos de corte?

Prof. Marcelo – Há um consenso entre técnicos de que a nutrição é um dos parâmetros de manejo que mais interfere no desempenho produtivo e reprodutivo dos animais. Em outras palavras, a precocidade ou a taxa de ganho de peso, a idade ao abate ou a idade à primeira cria são muito sensíveis às alterações da nutrição ou do programa nutricional da propriedade.

Além disso, a alimentação é um dos itens que mais onera os sistemas de produção, tanto em sistema extensivos quanto em sistemas intensivos. Na avaliação financeira de sistemas comercias de produção, a nutrição pode representar de 30% a 40% do custo total nos sistemas extensivos, podendo ser superior a 90% nos sistemas intensivos de engorda (confinamentos). Portanto, a conquista de maior eficiência econômica na produção depende necessariamente da administração criteriosa do plano nutricional e dos recursos disponíveis na propriedade.

RV – Quais os critérios devem ser considerados para se planejar o manejo nutricional desse tipo de gado?

Prof. Marcelo – O primeiro passo é avaliar a propriedade e propor um plano nutricional específico para cada rebanho ou cada fase de desenvolvimento (cria, recria, engorda). Nesta avaliação, devem ser levados em consideração os seguintes itens:

Recursos disponíveis na propriedade: insumos, maquinários, instalações, genética do rebanho e qualidade da mão-de-obra;

– Desempenho desejado: Ganho de peso, taxa de desfrute e eficiência reprodutiva;

Situação do mercado: Custo dos insumos, Preço da arroba, Preço da reposição.

Diversas alternativas poderão ser adotadas diante dos cenários que forem encontrados. Exemplo: supondo que estamos fazemos a preparação de novilhas de reposição em uma propriedade que realiza cria. A meta é transformar as bezerras desmamadas (7 meses) com 180 kg em novilhas (16 meses) com 300 kg no início da estação de monta. Promover ganhos de peso de 0,450 g/dia no período das águas, com animais manejados a pasto suplementados apenas com sal mineral, é uma tarefa fácil de ser concretizada. Porém, obter este mesmo ganho a pasto no período da seca, quando as pastagens estão com baixo valor nutricional, torna-se uma tarefa impossível se os animais não forem suplementados com proteinado. Se objetivo for maior que os 300 kg aos 16 meses, torna-se necessário também realizar suplementação com alimentos volumosos com a adoção de semi-confinamento ou confinamento.

Desta forma, é fundamental que produtores e técnicos tracem metas para os sistemas de produção e utilizem as estratégias nutricionais de forma consciente para que esses objetivos sejam atingidos de forma sustentável e economicamente viável. Seguem algumas estratégias de suplementação que podem ser adotadas: Sal mineral, Sal ureado, Sal proteinado, Suplemento energético, Pastagem diferida, Semi-confinamento, Confinamento.

RV – Quais as vantagens da criação de gado de corte a pasto? E em confinamento?

Prof. Marcelo – O sistema de produção a pasto é considerado o mais barato e de menor impacto negativo para o meio ambiente. Atualmente, com a adoção do manejo rotacionado das pastagens, é possível obter altos ganhos de peso por animal e alta produtividade por área com baixo custo de produção. Entretanto, a produtividade das forrageiras mais utilizadas, quando não irrigadas, é concentrada em apenas seis meses do ano. Devido a este regime sazonal presente em grande parte do Brasil, fruto da má distribuição de chuva e variação de temperatura, a produção de carne exige dos produtores que sejam criados manejos alternativos e formas de suplementação dos animais durante o período seco para que a produção seja mantida.

Uma destas alternativas de suplementação dos bovinos no período seco é o confinamento. Com a adoção do confinamento, é possível imprimir alto ganho de peso, realizar engorda e ter animais para abate durante todo o ano, promover uma melhoria na qualidade da carne com maior acabamento e padronização das carcaças, além de permitir que as pastagens sejam poupadas. Apesar de todas as vantagens apresentadas, este sistema é o de maior custo, o que aumenta o risco da atividade.

RV – A hora certa de abater um animal é determinada pelo peso ou pela idade do animal? Qual a idade ou o peso ideal para abate?

Prof. Marcelo – O momento correto para realizar o abate dos bovinos está mais associado ao acabamento da carcaça do que ao peso ou idade dos animais. O acabamento ou a espessura de gordura na carcaça tem como função principal proteger a carne durante o resfriamento. Recomenda-se que os animais apresentem no mínimo uma espessura de 3 milímetros de gordura no contrafilé, na altura da 12ª e 13ª costelas, porém, atualmente alguns frigoríficos tem exigido um pouco mais de gordura na carcaça. Se o acabamento de gordura for inadequado, no momento do resfriamento, a carcaça sofrerá “queimaduras” pelo frio promovendo encurtamento dos músculos, o que compromete a maciez da carne. Em contrapartida, promover um excesso de gordura na carcaça pode ser oneroso para o produtor, já que para isso o manejo nutricional deve ter uma alta densidade energética (alta proporção de concentrado) e a conversão alimentar tende a ser inferior neste momento.

A idade do animal é outro ponto relevante para a qualidade da carne por estar diretamente relacionado com a maciez. Diversos estados e frigoríficos têm estimulado a produção de animais precoces e superprecoces em busca desta melhor qualidade da carcaça e para atender mercados específicos. Entretanto, o produtor deve ter em mente que será necessário adotar um conjunto de técnicas, como o Creep-feeding na fase de cria e suplementação com alimentos concentrados na fase de recria, que permitam levar o novilho ao abate com boa conformação e acabamento da carcaça com menos de 24 meses. Animais jovens quando não manejados corretamente e de forma intensiva podem não atender a demanda do mercado consumidor por apresentar cortes cárneos de menor tamanho e acabamento insuficiente.

Em resumo, os frigoríficos e mercado consumidor, desejam animais jovens, pesados, com adequado acabamento de gordura, boa distribuição muscular e proporcionando bom rendimento de carcaça.

RV – Em sua opinião quais os principais desafios para a pecuária de corte atualmente?

Prof. Marcelo – Apesar da alta demanda de alimento e do bom valor pago pela arroba, nos últimos anos, alguns desafios passaram a rondar a rotina dos pecuaristas brasileiros: elevado custo de produção e impacto ambiental da pecuária de corte.

Apesar do aumento da produção de grãos, no último ano, os preços dos insumos utilizados para a suplementação animal, em especial o milho e o farelo de soja, aumentaram significativamente. De acordo com levantamento realizado pela Embrapa, nos últimos 12 meses, os preços dos insumos utilizados para produção de concentrado aumentaram em média 6,1%. Com o aumento da adoção dos confinamentos, que tem como base a utilização de grande quantidade de concentrado, ocorrerá naturalmente o aumento no custo de produção e redução da margem de lucro dos produtores. Outro fator que tem contribuído para aumentar o custo de produção na bovinocultura de corte é a elevação dos preços da reposição. De acordo com o Instituto Matogrossense de Economia Agropecuária (IMEA), o preço do Boi magro (12@) está 19,30% maior este no ano de 2011 em comparação com 2010. A elevação do preço da reposição também foi observada para as demais categorias animais, sendo que o bezerro desmamado (5,5@) está 5,79% mais caro em 2011. Reposição mais cara e difícil de se encontrar, é o que os produtores enfrentarão no ano de 2011.

Com relação as questões ambientais, os bovinos têm sido rotulados como os grandes vilões das mudanças climáticas, o que pode no futuro prejudicar indevidamente o consumo e as exportações de carne. Desta forma, os produtores devem buscar estratégias para tornar seus sistemas de produção mais eficientes como recuperação e manejo eficiente das pastagens, manejo adequado dos dejetos e ampliação dos sistemas integrados lavoura-pecuária-floresta, reduzido assim o impacto ambiental desta atividade. Além disto, é necessário que o Governo, Institutos de Pesquisa e produtores conscientizem a sociedade de que os sistemas de produção de carne podem trabalhar como mitigadores dos gases de efeito estufa, já que pastagens bem manejadas têm a capacidade de seqüestrar carbono.

 

 

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Atualizado em: 6 de julho de 2011

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